Sinto o cheiro de massala abafando o cheiro do tabaco forte. È abril e as crianças brincam na madrugada de pique esconde. Pique esconde dentro de casa , nas suas camas. Madrugada que nem é madrugada ainda. Todos se recolheram, menos eu. Recolhi algumas ideias.
Já não vejo o amanhã azul. O amanha é azul e pintado de verde chiclete, nas abas, arrematado com uma demão de guache cor de anil. È amarelo de sem vergonha, vermelho de intenso e púrpura de bobagem. Mas é um amanhã invejável. Imagino o que acontecerá, porém o resultado só saberei no fim do dia. Tudo e nada podem acontecer. No mesmo instante ou em sintonias diferentes. E quando o dia acaba, aquele dia vai para o ficheiro datado e organizado por flahs importantes e noticias curiosas.
E não adianta negar. É mais um dia vivido. Está claro no seu tom de pele tudo que fizera. Leva no sorriso o amarelo do desgaste. Nasceu , pronto ! O relógio começa a cantar. Tic – tac. Você cresce e amadurece, o relógio tic – tac. Até um certo ponto o tic – tac é mudo é desprezado. Com o passar do cantarolar, seu tom grave pesa sobre essas pobres vidas. Até que um dia o tic – tac se cala de vez. Mas até ele se calar, já ouviu muita coisa.
Ouviu que alguém, viveu e nunca se olhou no espelho. Não no espelho de vidro, que se quebra com tamanha descompostura. E sim no espelho da alma. Quem não guarda dragões e feridas dentro de si, que se cutucadas, jorram sangue pelas veias, dilatam as mais cruas sensações. De nojo, injúria e renegação.
É o medo de não ser aceito. E quando não se tem massa e moldes, se moldam em historias bem sorrateiras. Criam pessoas que não existem, lugares e acontecimentos. Isso vira caso de doença. E onde fica a busca pela aprimoração? Enjaulada dentro de um corpo nú no sereno frio, em uma cela de um forte antigo beira mar. È mais fácil trancar toda e qualquer vontade de mudar. E ali dentro , no mundo imaginário se muda. De roupa, vestido e poesia. Se olha no espelho e se vê bonito. Penteia os cabelos e sai rua afora. Vestindo a máscara que só ele vê. Refletindo pureza, harmonia e arrogância.
Está desconte com o tempo de hoje. Com a impossibilidade de transgressão. Acorda, se olha no espelho e vai trabalhar. Leva duas horas entre bicicleta, paciência, tempo, ônibus, paciência e caminhada. Chega exaustivo no emprego dos sonhos e propriamente ao tempo e quesitos. Sempre reclama que quer promoção. Não promoção de valores e sim de importância, já que ele faz teu salario com negócios para a empresa.
Tem um dia de expectativas e... Nada acontece. Normal isso acontecer. Será só mais um dia no ficheiro. Pode ser um dia qualquer , mas é um dia vivido. E mais duas horas entre caminhada, paciência, ônibus, paciência e bicicleta, chega em casa. Segue correndo pelos cômodos até o quarto. Ao chegar, abre uma caixa entalhada em madeira. No interior da caixa há tabaco e massala. No lado interno da tampa, um espelho. De reflexão invejável e angulação minimalista. Olhando de canto vê o homem na cela. Virando o espelho de cabeça pra baixo, o homem alcança quem ele quiser.

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