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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma dose de uísque com duas cubos de gelo por favor



  Por favor me dê uma dose de uísque com dois cubos de gelo, há meses espero por essa tão sonhada bebida. Servida em um copo de vidro não muito especial, possui linhas grotescas e um desenho arrojado, transparente, enaltecendo a cor do liquido flamejante. Agradeço o servido. Pego naquele copo que um dia fora somente meu, ou então eu pensava assim. Chego a salivar de tanta fomência em sentir novamente esse ardor em minha garganta, e mais feliz ainda de relembrar da embriaguez posterior a essa dose, acho melhor levá-la pra casa, aqui não é um lugar adequado para se tomar um copo de uísque. – por favor, suspenda a dose, vou levar uma garrafa.
  E vou caminhando pela rua a fora, com minha garrafa de uísque entrelaçada pelos meus braços com o intuito de protegê-la, pois esta é tão frágil, de vidro. E sei que se algo acontecer a essa garrafa não sei o que sou capaz de fazer. Ainda bem que ela se encontra escondida dentro de um saco velho de pão.
  Acabo de chegar em casa, coloco minha linda garrafa no balcão na cozinha, acendo um cigarro e começo a olhá-la insistentemente. Como suas curvas são sinuosas, um poço de perdição, sua embalagem vistosa, toda a cor de ouro velho com suas letras num tom cobreado. Seu liquido marrom fogo, fico inúmeros minutos a observando até o meu cigarro acabar. E noto que ela também me admira entreolhares, cabisbaixa, mas esta me fitando.
E como eu sonhava em tê-la novamente em minha casa, mas me tornara um completo embriagado por isso decidi nunca mais consumi-la. Mais hei que um dia todo mundo sente falta, vou abri-la nesse instante. Ah! Que saudade desse cheiro surreal, magnífico, esse tom amadeirado, que rememora anos de total experiência, que se comparando a mim me sinto um guri perto de um ancião. Eis que meu cérebro já recorda de todos os momentos vividos eu e essa velha dose de uísque com dois cubos de gelo. Quantos momentos bons, inesquecíveis, merecedores de uma dose. Vou aprontar o copo e o gelo, isso merece uma taça de cristal, há quantos dias sonho com esse uísque, chego a me emocionar.
 Prometi que somente a beberia se não mais mandasse no meu coração e, antes que eu me perca em seus tons amadeirados, rolam duas lagrimas do meu olho esquerdo, afirmando que ainda sinto algo por essa simples garrafa de uísque. Serei forte não a beberei, se eu a consumir será a primeira, depois virão outras, não o farei, sou mais forte. Vou a enterrar nesse baú de carvalho quem sabe assim depois de longos anos ela não me causará apertos no coração, relembrarei dela mas não sentirei falta, o que eu ainda sinto.- Eu não posso bebê-la, por favor me entenda. Não me olhe desse jeito, você é mais forte que eu. Ainda. Tristemente eu a enterro, debaixo dessa roseira, na esperança que um dia, poderei a devorá-la inteira, onde eu não sentirei mais saudades suas e sim você. Sentirá saudade de meus lábios levemente rosados, provido de uma certa saliência que um dia fora os mais tocados por você, sentirá saudade de minha embriaguez, dos meus risos e de minhas loucuras cometidas na sua presença, do meu cheiro, de meus soluços, das dores de cabeça causadas por você mas tratadas por você também. E é nesse dia , somente nesse dia que eu desenterrarei você, quando sua embalagem já não mais existir, e seu cheiro, estará completamente amadurecido. Talvez eu me engane, você voltara muito mais forte, curtido, e eu tentarei mais uma vez ser mais forte que você. E serei, mais embriagante que uma dose de uísque com dois cubos de gelo, por favor. 

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