Deixei a porta aberta e a chave dependurada nela.
Esqueci de apagar o cigarro,
de varrer a poeira por debaixo do tapete.
Não fiz a barba,
não escovei meus dentes,
não fiz a lição de casa.
Não esperei o sinal fechar,
não disse adeus,
não fui até a estação de trem.
não cumpri as promessas,
esqueci o relógio em cima do sofá,
deixei o computador ligado,
não cuidei do meu gato.
Não apaguei a chama,
não consegui falar,
nem lembro se já chorei.
Não ouvi meu coração bater,
esqueci do orgasmo e do catarro nos brônquios.
Nem lembro se estou com fome,
não liguei para o encanador,
nem arrumei o chuveiro.
Não peguei o jornal de manhã,
se quer admirei o sol estonteante,
esqueci das estrelas,
apaguei a lua.
Não quebrei o vidro,
não briguei pelo que é meu,
não impôs minha inteira vontade de mudança.
Estou de mudanças?
Ainda não me avisaram.
Não mudei o aquário de lugar,
nem olhei pro saguão,
esperei mas não chegou,
chorei e mesmo assim não chegou,
quase morri e ainda não chegou.
O carteiro passou,
e eu não recebi nada,
não tenho identidade,
não tenho promessas,
restam poucas duvidas.
Tenho medo,
um edredom,
e um maço de cigarros,
faltam sete livros
e duas fotos 3x4 pra que eu seja completo,
ou reinventado,
remontado,
reciclado,
re, realmente vencido.
Perdi meu brasão,
meu sangue azul,
minha altivez,
só não sei onde,
achei três amigos,
uma porção de maconha,
e um mundo psicodélico,
mentira!
É a televisão que está ligada,
sobra tanta falta.
Fiz um bolo,
dei um bolo,
me embolei.
Tento sair desse novelo,
mas antes tenho que buscar minha chave e fazer com que tudo que a sobra da falta andou me fazendo esquecer volte, como a lembrança da borboleta que um dia pousara em meu dedo mostrando a simplicidade das coisas que torno e entorno complexas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário